segunda-feira, 5 de julho de 2010

Direto da bacia das almas



Os discursos ausentes: Jesus te ama
Posted: 30 Jun 2010 01:52 AM PDT
Para Harold Bloom, a personalidade é uma invenção de Shakespeare; para Derrida, o indivíduo é uma ilusão criada pela intersecção do corpo com o discurso das estruturas de poder. Em alguma medida todos que estudam o assunto concordam que foram necessários milênios de evolução cultural para que o conceito de indivíduo saísse pela primeira vez do oceano indiferenciado da cultura da coletividade. Os gregos lhe deram pernas e o Renascimento moveu-se de paixão por ele, mas foi o capitalismo de livre-mercado – o mundo em que vivemos – que colocou finalmente o indivíduo acima de todos os outros deuses.
Esse lento despertar do indivíduo de seu sono no seio coletivo está refletido no próprio fio narrativo da Bíblia. No Pentateuco e, em grande medida, nas crônicas históricas, a coletividade prevalece de forma muito evidente sobre o indivíduo. Os mandamentos e as promessas, as injunções e as ameaças, dizem respeito ao povo como um todo e requerem coletiva obediência1. Mesmo notáveis como Moisés, Abraão e Davi são celebrados menos pelos seus traços de personalidade do que pelo seu papel na sustentação e fixação do caráter da comunidade. Num certo sentido só existe o coletivo: os méritos de Israel são medidos pelo desempenho do grupo, e todos são castigados pelo erro de uns poucos.
Então, em algum momento da história e talvez sob a influência transversal dos gregos, os profetas abandonam a ênfase tradicional na responsabilidade coletiva e começam a enfatizar a responsabilidade individual. A justiça divina passa a ser compreendida de uma nova maneira, e nela os filhos deixam de ser punidos pelas transgressões dos pais. Deus deixa de visitar as gerações e a massa indistinta dos “filhos de Israel” e passa a procurar homem a homem um coração contrito em que possa reclinar a cabeça.
O ensino de Jesus surge num momento em que o conceito de responsabilidade individual já está bastante desenvolvido no tecido cultural de Israel. O Filho do Homem, por um lado, reforça ao extremo essa tendência, denunciando os abusos da religiosidade coletiva-institucional e requerendo de cada um o posicionamento e o engajamento que o distinga da ilusão da massa. Por outro lado, Jesus reverte por completo o alvo e o fim da individualidade, deixando claro que o indivíduo só encontra realização, significado e verdadeira satisfação no serviço voluntário e não-condicionado do próximo. O conceito de
metanoia, como apresentado por Jesus e pelo seu precursor, diz respeito a esse duplo despertar do humano para sua individualidade e para seu destino glorioso no seio do Outro. Porque para Jesus só existe o indivíduo, mas a qualidade da relação do indivíduo com Deus e consigo mesmo tem uma única medida, a da qualidade da sua relação com o outro. “Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, a mim o fizestes”.
Dos discursos ausentes de Atos e do Novo Testamento, o mais revelador – tanto da mentalidade da comunidade original quanto da nossa – talvez seja o apelo ao indivíduo que caracteriza toda a evangelização contemporânea, e encontra sua manifestação mais comum na fórmula “Jesus te ama”.
Os colonizadores bíblicos do reino encontraram muitas maneiras de propor a boa nova, mas parece que nenhuma delas passa por enfatizar o amor individual e incondicional de Jesus (ou de Deus) pelo ouvinte. A Bíblia está muito mais inclinada a dizer que Jesus é Deus, e que Deus é amor, do que a fornecer ao seu leitor o conforto (que oferecemos a qualquer um) de que Jesus o ama. Isso porque articular a boa nova como “Jesus te ama” requer como pré-condição uma sociedade inteiramente obcecada com a ideia do indivíduo: a nossa sociedade.
Há um oceano de diferença entre dizer, como a o Novo Testamento, “Deus é amor”, e dizer, como dizemos, “Jesus ama você”; entre dizer como a Bíblia “andem em amor, como Cristo também os amou”, e dizer como dizemos “Jesus te ama”. A articulação bíblica, de que Deus é amor, requer uma resposta ativa de amor ao outro, e sugere um trajeto que resgate o ouvinte do abismo sem fundo do individualismo. A conclusão necessária de ouvir “Deus é amor” é um incômodo devo amar. Nossa própria articulação, “Jesus te ama”, requer uma resposta meramente passiva e ignora por completo a questão da minha relação com o outro. A conclusão necessária de ouvir “Jesus te ama” é um confortável sou amado. Para a Bíblia, o amor é um desafio que me resgata de mim mesmo; para o evangelismo contemporâneo, é um conforto que me faz afundar ainda mais dentro de mim.
Porque o Novo Testamento, que não cessa de atestar o amor de Deus, não se rebaixa como nós a usar esse amor como fonte de conforto e acomodação. Ao contrário, o amor divino requer a mais urgente e intransigente das respostas, a imitação:
Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.
Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros.
Dizer “Jesus te ama” é sugerir que o sentido do movimento do reino é para dentro do indivíduo; a Bíblia, em contrapartida, insiste que o movimento do reino é no sentido oposto, do indivíduo para fora. Essa, do indivíduo para fora, é na verdade a única definição concebível de amor. Aqui está o padre francês François Varillon, lembrando que amar (isto é, ser salvo; isto é, ser como Deus) requer um movimento, uma transferência de centro, de nós mesmos para o outro:
Descentro-me para que meu próprio centro não mais me pertença; de agora em diante seja você o meu núcleo. [...] Amar é renunciar a viver em si, por si e para si. Eis o mistério da Trindade: se o amor é acolhida, é necessário que haja diversas pessoas em Deus. Ninguém se dá a si mesmo, nem a si mesmo acolhe. A vida de Deus é essa vida de acolhida e dom. O Pai é movimento para o Filho. O Filho é Filho para o Pai e pelo Pai. E o Espírito Santo é o beijo entre eles.
Dizer “Jesus te ama” é dirigir-se circularmente ao indivíduo, e para salvar o indivíduo é preciso resgatá-lo de si mesmo. Na narrativa de Atos a boa nova é que a obra de Jesus libertou seus ouvintes não para descansarem no privilégio inescapável de serem amados – mas para capacitá-los a fazer a coisa certa. E, se pecar é omitir-se, fazer a coisa certa é colocar o amor em prática. É por isso que, para os autores do Novo Testamento, amar (e nisso imitar a divindade) é privilégio e responsabilidade tão grande que diante dele ser amado representa a mais acessória das faculdades.
Nossa tendência é acreditar na pregação que afirma que viver o amor requer a negação do eu e equivale à completa renúncia da individualidade. A verdade é muito mais desafiadora e interessante, porque o amor é a única afirmação possível do eu. Jesus tornou-se grande no que amou; encontrou a mais completa e contagiante humanidade no ato de atribuir valor aos mais desprezíveis dos seus interlocutores. O inferno é o conforto da paralisia do ego, e a inteireza do eu está no trajeto para os outros.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Orgulho e vaidade



Orgulho e vaidade.
A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam freqüentemente usadas como sinônimos.
Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.

Por Jane Austen ( Orgulho e preconceito )

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Eu dúbio


Eu dúbio.

Pensei como seria pensar em si matar, não que eu queria levar a cabo realmente esse pensamento, mas o momento foi real, se posso classificá-lo assim.

Estava triste, decepcionado com a vida, que é difícil pra todos nós homens duplicados humanos, basta estar vivo pra ver o sofrer, como dizem escolhemos o modo de sofrer, se a maneira clássica ou alternativa ante o tal. Abalado emocionalmente, “desisti”, veja bem, desisti em pensamento e por um breve momento, da vida.

O que me fez pensar assim?

A minha insatisfação, a não realização da satisfação pessoal, o emaranhado de desejos que me conturbavam, o poço de anseios que inundavam minha mente, estorvava e entorpecia meu raciocínio, passei por esse momento de pensamentos lúgubres chafurdado em idéias negativas, mas o interessante é que mesmo vendido sob essas trevas, sabia com toda a certeza que nunca teria coragem de tirar a minha própria vida.

Vi que o que estava em jogo era eu mesmo, o eu razão e o eu emoção, gigantes cá de dentro numa treta avassaladora, como se fosse dois leões brigando por território, e o vencedor fosse quem fosse, tomaria o lugar de senhor e o privilégio em mim.

Nesse momento ruim fui pouco a pouco sendo salvo por um velho amigo, em sua maneira clássica esse amigo me estendeu a mão quando eu estava só brigando comigo mesmo nessa guerra pessoal. Disse para esperar, sentar me acalmar e pensar, pois é, pensei, pensei e pensei, concluí que me matar não era de modo nenhum vantajoso, e então desisti, veja bem, desisti literalmente da idéia de perder a vida.

Esse velho amigo, chamado de bom senso na obra de Saramago, em o homem duplicado, mostrou o seu e o meu lado de equilíbrio onde reside a sabedoria capaz das decisões corretas, viva meu amigo eu mesmo!

Um outro amigo e também inimigo quase me matou, queria porque queria ser servido, ser acariciado, ser mimado, me arrastou pro seu fundo, e quando o neguei, por pura safadeza queria acabar com nós dois, safado.

Jacó e Esaú, o bem e o mal, luz e treva, razão e emoção, essa é a minha ambigüidade e eterna companheira, resta saber quem será o sócio majoritário.

Por João Neto

O último cristão.


O último cristão

A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. “Meu Deus”, dirá você, “se eu fizer iss minha vida estará arruinada. Como vou progredir na vida”.

Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. Erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Soren Kierkegaard.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Símbolos travestidos


E é quando a dor bate a porta e se esgotam os recursos da técnica que nas pessoas acordam os videntes, os exorcistas, os mágicos, os curadores, os benzedores, os sacerdotes, os poetas, aquele que reza e suplica sem saber direito a quem...
E surgem então as perguntas sobre o sentido da vida e da morte, perguntas das horas de insônia e diante do espelho...O que ocorre com freqüência é que as mesmas perguntas religiosas do passado se articulam agora, travestidos por meio de símbolos secularizados.
Metamorfoseiam-se os nomes. Persiste a mesma força religiosa. Promessas terapêuticas de paz individual, de harmonia íntima, de liberação da angústia, esperanças de ordem sociais fraternas e justas, de resolução das lutas entre os homens e de harmonia com a natureza, por mais disfarçadas que estejam nas máscaras do jargão psicanalítico/ psicológico, ou da linguagem da sociologia, da política e da economia, serão sempre expressões dos problemas individuais e sociais em torno das quais foram tecidas as teias religiosas. Se isto for verdade, seremos forçados a concluir não que o nosso mundo se secularizou, mas antes que os deuses e esperanças ganharam novos nomes e novos rótulos, e os seus sacerdotes e profetas novas roupas, novos lugares e novos empregos.

Por Rubem Alves.

Com o triunfo da burguesia Deus passou a ter problemas habitacionais crônicos. Despejado de um lugar, despejado de outro... Progressivamente foi empurrado para fora do mundo. Para que os homens dominem a Terra, é necessário que Deus seja confinado aos céus.
Por Rickert.

Não existe religião alguma que seja falsa. Todas elas respondem, de formas diferentes, as condições dadas da existência humana.
Por E. Durkheim.

Aos fiéis pouco importa que suas idéias sejam corretas ou não. A essência da religião não é idéia, mas força. O fiél que entrou em comunhão com o seu Deus não é meramente um homem que vê novas verdades que o descrente ignora. Ele se tornou mais forte. Ele sente, dentro de si, mais força, seja para suportar os sofrimentos da existência, seja para vencê-los.
O sagrado não é um círculo de saber, mas um círculo de força.
Por E. Durkheim.

O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, expressão de um sofrimento real e protesto contra um sofrimento real. Suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito: a religião é o ópio do povo.
Por Karl Max.

Ópio do povo? Pode ser, mas não aqui. Em meio a mártires e profetas, Deus é o protesto e o poder os oprimidos.
Por Rubem Alves.

O reino do céu é um estado de espírito não algo que virá “além do mundo” ou “depois da morte”. Toda a idéia de morte natural está além dos evangelhos, a morte não é uma ponte, uma mensagem, está ausente porque pertence a um mundo de todo diferente, meramente aparente, interessante apenas como um símbolo. A hora da nossa morte não é uma idéia cristã, “horas”, tempo, a vida física e as crises não existem para o portador da boa nova...
O reino do céu não é algo que os homens devam esperar, ele não tem ontem, nem depois de amanhã, não chegará a um milênio, é uma experiência do coração, está em toda parte, e não está em parte alguma.
Por Friedrich W. Nietzsche.

Tirai uma idéia e colocai nela uma legítima realidade, e todo o cristianismo desmoronará, arruinado.
Por Friedrich W. Nietzsche.

Inicialmente, a dimensão de transcendência não tem nada a ver com as religiões, embora elas procurem monopolizar a transcendência.
Por Leonardo Boff.


terça-feira, 2 de março de 2010

Lutero, Erasmo e a reconciliação dos cristãos




Religião e Dinheiro misturados, em qualquer lugar ou época, sempre inspiraram suspeita ou provocaram confusão. E não sem motivo, pois a Religião associa-se às coisas do espirito, à fé e à pureza, enquanto que o sonante é emparelhado ao mundo da materialidade, da avareza e da corrupção. Jesus Cristo, como é sabido, desconfiava da presença das moedas nos campos da fé. Ainda quando ele aconselhou a um jovem abastado a desfazer-se dos bens em favor dos pobres, mesmo assim acreditava ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico alcançar o Reino de Deus (Mateus, 19). Para ele, quem tinha muito dinheiro era irrecuperável.
Cristo e Lutero

Lutero na Dieta de Worms, enfrenta o imperador Carlos V(1521) O Galileu redobrou sua posição em manter a fé longe do mundo argentário quando, num célebre episódio, expulsou os comerciantes que mercadejavam nas cercanias do Templo em Jerusalém e, em seguida, em resposta a uns fariseus e herodianos que lhe inquiram sobre a legitimidade dos imposto exigido pelos romanos, ao mostrar-lhes um denário com a face do imperador, conclamou-os, afastando-o de si, que o devolvessem: “a César o que é de César, e o que é de Deus, a Deus” (Mateus,22). Martim Lutero, quinze séculos depois, de certo modo, seguiu-lhe nos ensinamentos. O rude monge alemão que se tornara doutor em teologia, mais de mil e quinhentos anos depois desses episódios relatados no Novo Testamento, não vira mal nenhum em rejeitar veementemente a comercialização de indulgências que estava sendo praticada por quase toda a Alemanha com a autorização papal. Quando o padre Tetzel, um representante do arcebispo Albert de Brandeburgo e do Banco Fugger, aproximou-se das propriedades de Frederico o sábio, o príncipe-eleitor da Saxônia e suserano do doutor, visando o escuso e nefando negócio de perdoar os pecados em troca de dinheiro, Lutero foi a luta. Sentiu-se no papel de Cristo empunhando um cajado contra os vendilhões do Templo, no caso Tetzel e a quem representava. Ao afixar no dia 31 de outubro de 1517, nas portas da igreja do Castelo de Wittemberg, em Augsburg, suas “95 teses” atacando a Igreja Romana, o monge alemão provocou o maior cisma na história da Cristandade Ocidental. O argumento central de Lutero, de raiz paulina, era simplíssimo. Ninguém estava autorizado na Terra, nem padre nem papa, a salvar fosse quem fosse. A salvação era um atributo exclusivo de Deus. Nem mesmo as boas ações adiantavam. Sequer gordas esmolas ou confissões arrependidas. Como poderia o Onipotente, policiando um universo infinito, levar em conta os gestos de caridade ou sincera constrição de um ou outro dos crentes? Logo, traficar perdão em nome de Deus era, no mínimo, obsceno.
Erasmo sugere a reconciliação

Desiderius Erasmus em 1523 O Papado, porém, reagiu a Lutero como faria um chefe de corporação ofendido em seus privilégios. Em 1520, Leão X, um descendente dos Medici (um glutão, de quem Voltaire disse “ter Deus no estômago...e o dinheiro extorquido das indulgências nos seus cofres e nos da sua irmã”), expediu uma bula excomungando-o. Foi o início do desastre para a unidade cristã. Ao ter a Cúria permitido, ao longo dos séculos, que a Igreja-estado mantivesse ligações incestuosas com o Dinheiro, fez por contribuir para que parte considerável da sua imensa construção medieval, estocada por Lutero, ruísse para nunca mais se compor. Erasmo de Rotterdam, o grande humanista que se antecipara a Lutero em suas críticas ao Papado (*), ainda tentou uma apaziguação entre as partes cada vez mais hostis apostando numa reforma do clero pela brandura, aconselhando Roma a que não levantasse o báculo em guerra contra Lutero. Aquela altura porém, por detrás do monge doutor vibrava indignada uma Alemanha quase que inteira em pé de guerra, furiosa contra o Pontífice de Roma. Nos decênios seguintes à insubmissão de Lutero, protestantes e católicos ensangüentaram a Europa com suas guerras a pretexto da fé. Todavia, mais recentemente, aproveitando-se do clima geral de concórdia existente na Cristandade por ocasião da passagem do Jubileu de Cristo, Católicos e Luteranos, após cinco séculos de turras e troca de desaforos, decidiram reconciliar-se assinando na mesma Augsburg, o epicentro da vulcânica reforma de 1517, a Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação, harmonizando suas concepções sobre a Salvação, uma das causas teológicas de toda a discórdia anterior. É uma homenagem tardia a Erasmo. Porque não o ouviram então?
(*) “O povo corre para as igrejas como a um teatro para divertir-se. Então é preciso levantar-se dinheiro para o grande tributo do órgão, por manter multidão de meninos...Neste meio tempo nada de bom é ensinado.”Erasmo – “..ad veram Theologiam”, 1519


Por Voltaire Schilling.




terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Meus amigos



Eles se foram. Nem um tchau ou adeus.
Eu os magoei, eles me magoaram. Foi uma dupla via sem esforço em desfazer todo um edifício construído por anos.
Também a imperfeição era latente pra não dizer egoísmo solvente.
Pois é, dissolveu tudo o mais, nossas confissões, idéias de comunhão, tudo que foi comungado virou cacos nas lembranças, se foram em bando, sinto saudade não vou negar, sinto remorso, não nego e não sossego.
Meu desejo é viver tudo de novo, só que de uma maneira diferente se fosse possível, menos ausente e mais disponível, porquê só aprendemos depois? Porquê não aprender antes do erro? Porque só valorizamos algo quando o perdemos?
Se não houver o erro há a perfeição? E sendo perfeito talvez os teria de volta?
Sinto saudades. O aprendizado é um canal doloroso onde perdemos grande parte do nosso todo, é isso mesmo, não sou só eu, sou eu e mais alguém, a ilusão da solidão é um estigma de permanente depressão, chega-se até criar um mundo subalterno de anseios indesejados, de sentimentos antes nunca sentidos, de loucuras nunca antes provadas, de degraus inferiores nunca antes pisados. Isso é uma ruptura, isso é uma ferida aberta, e é nessa calçada suja da culpa no gueto sombrio do egoísmo, que meus pecados me torturam.
Eles se foram. Nem um tchau ou adeus.
Naquela esquina da vida onde os vejo, um outro ambiente, uma outra rota é traçada bem longe daqui, e a minha é traçada na direção contraria, talvez num cruzamento desses, nossos caminhos se encontrem novamente.

João Neto.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ao início pelo fim


De resto, o que importa todas as misérias do passado? Naquela primeira alegria do regresso à vida, tudo, até seu crime, até a sua condenação e a sua deportação para Sibéria, tudo lha parecia como um fato exterior, estranho; parecia atém duvidar que isso tivesse realmente acontecido. Aliá, naquela noite ele não conseguia refletir por muito tempo, fixar o pensamento em um objeto qualquer, nem conseguiria resolver conscientemente qualquer questão que fosse; só conseguia sentir. No lugar da dialética surgira a vida, e na consciência devia elaborar-se algo inteiramente diferente.

Debaixo do travesseiro ele tinha o evangelho. Pegou-o maquinalmente.Aquele livro pertencia a ela, fora naquele mesmo volume que lhe havia lido outrora a passagem da ressurreição de Lázaro. No principio da sua vida de prisioneiro, ele esperava que ela haveria de importuná-lo com religião, que vira constantemente se pôr a falar sobre o Evangelho. Mas, para seu espanto, nem uma única vez ela fez derivar a conversa para esse assunto, nem ma única vez lhe sugeriu o Evangelho. Fora ele próprio que lho pedir pouco tempo antes de sua doença, e ela levou-lhe sem dizer palavra. Até então ele não o tinha aberto. Tampouco o abriu dessa vez, mas um pensamento atravessou-lhe rapidamente o espírito: “ Poderia agora as suas convicções ser diferentes das minhas? Poderei eu ter outros sentimentos, outras aspirações que não seja as dela?...” Durante esse dia, Sônia estava também, muito agitada, e à noite chegou até a voltar a ficar doente. Mas estava feliz, que quase sentia medo daquela felicidade. Sete anos, somente sete anos! Nas primeiras horas da sua felicidade, pouco faltou para que ambos considerassem esses sete anos como sete dias. Ele em mesmo sabia que a nova vida não lhe seria de graça, que tinha de adquiri-la a custo de longos e dolorosos esforços, que teria de pagar por ela com uma grande realização no futuro.

Mas aqui começa uma outra história, a da gradual renovação de um homem, da sua regeneração paulatina, da sua passagem progressiva de um mundo para o outro, do seu conhecimento de uma realidade nova, inteiramente ignorada até aquele momento. Poderia ser a miséria de uma nova narrativa-mas esta que vínhamos narrando termina aqui.

Por Fyodor Dostoiévski ( Crime e Castigo )

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quem sou eu


Minha condição humana me fascina. Ignoro por que estou na Terra, mas às vezes pressinto. Sou o concreto e o abstrato.
Reconheço que sou o concreto de minha existência quando observo homens se diferenciarem pelas classes sociais; partidos políticos elaborarem leis unilaterais; governo aumentar impostos para compensar gastos irrisórios; autoridades regatearem verba para educação e a humanidade se apaixonar pela riqueza material como única finalidade de vida.
Em contrapartida, sou o abstrato da sabedoria para garantir o uso do conhecimento acumulado no passado aplicado no descobrimento da minha presença aqui; para perceber novos caminhos e alternativas não traçadas na viagem; para interagir com discentes, proporcionando situações que envolvam observação, comparação, valoração, decisão, autonomia e transformação da realidade uma vez que os indivíduos não são presenças neutras na história.
Logo, sou o concreto no social e histórico e o abstrato quando valorizo a importância da luta esperançosa de transformação do mundo a partir de uma intervenção que não adere nem se adapta, mas analisa e modifica.

Sandra Valéria Walchhutter ( Professora de Português da Etec Jorge Street )

Somos todos seres desejantes


Somos todos seres desejantes, Talvez o desejo seja a nossa experiência mais imediata e, ao mesmo tempo, mais profunda. Coisa que já Aristóteles vira e que Freud colocou como eixo fundamental para entender o motor humano.

A nossa estrutura de base é o desejo. E faz parte da dinâmica do desejo não ter limites. Não desejamos só isso e aquilo. Desejamos tudo. Não queremos só viver muito, queremos viver sempre. Desejamos a imortalidade. E nos frustramos, porque o princípio da realidade nos mostra que somos mortais. Vamos morrendo devagarzinho , em prestação, cada dia, até acabarmos de morrer. Mas o nosso desejo é sempre virgem, sempre quer viver mais, quer prolongar o tempo, quer transcender a morte. A grande chave da pseudo-transcendência é manipular nossa estrutura de desejo, é canalizar toda nossa potencialidade de desejo para uma coisa limitada e identificar essa coisa com o totalidade da realidade. É então que nos frustramos, porque o desejo quer o todo e só alcançamos a parte.

A propaganda do cigarro Marlboro é como um sacramento da igreja Católica que age ex opere operato – age por si mesmo, automaticamente. Quem fuma Marlboro, nos prega o marketing, tem as mulheres mais esplêndidas, dirige uma Ferrari luzidia, desfila por paisagens soberbas. Basta fumar Marlboro para ter essas experiências, assim como as paisagens belíssimas, existem só no imaginário. Não produzem nada, fornecem apenas uma ilusão e manipulam nossos sentimentos. Mas o grave é isso, que permitem a ilusão da realização do desejo infinito identificado com um objeto finito. Devemos passar por todos esses objetos, dizendo fundamentalmente: “ O obscuro objeto do desejo humano não é este ou aquele ser, esta ou aquela realidade. Não é um automóvel, não é uma mulher esplêndida, não é escrever um livro, não é fazer teatro, não é ser isso ou aquilo. É mergulhar no ser, captar a nossa sintonia com a totalidade, é sentir que somos chamados ao ser pleno, e não ao pedaço do ser.”

Vivemos no finito. Tudo o que tocamos é limitado. Mas o desejo é infinito, é ilimitado. Então, para sermos fiéis aos apelos de nossa interioridade, é preciso manter essa abertura infinita. Quando confundimos essa realidade parcial com a totalidade da realidade, vem a ilusão do fetiche, a ilusão do endeusamento, da idolatria, dos falsos deuses.

Leonardo Boff ( Tempo de transcendência )

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Auto-engano


Minha mãe sempre repetia, antes só do que mau acompanhado, a bíblia ensina-me''aquele que se isola busca seu próprio interesse”, no decorrer da vida percebi que minha mãe não estava errada, nem a bíblia.


Algumas companhias não eram boas, mesmo sendo uma pessoa livre de opinião, sempre existia aquela pressão, o comportamento adequado para pertencer ao grupo. Me afastei conscientemente das influências que derrapavam em si mesmas, sem o prévio conhecimento bíblico certifiquei-me posteriormente que estava impregnado do meu próprio interesse, até ai normal pois buscava melhoria de vida, e essa melhoria estava muito além daquele grupo que tinha interesses antagônicos aos meus, passei a andar só, não sozinho, mas só nos ideais.


Passado alguns anos tive alguns contatos esporádicos com aqueles antigos amigos, alguns vivos outros mortos, alguns iguais outros diferentes, mas ainda tínhamos laços de amizade, algumas idéias, ou resto de semelhanças. Convertido ao cristianismo e servindo ignorantemente a um pastor e a uma igreja medíocre de sensibilidades, tornei- me mais um anjo da insensibilidade, como uma lixa áspera lixava e nem me lixava para ninguém, meu umbigo era a região mais longe em que realmente depositava preocupação, alcancei níveis de espiritualidade que exploravam mais a imaginação do que a realidade, obtive reconhecimento dentre os irmãos por falar constantemente em línguas estranhas, pois sutilmente fui ensinado que quem assim procedesse teria destaque na igreja como pessoa abençoada, iluminada, inspirada e espiritualizada.


Era uma ilusão enraizada e permanente nas tradições evangélicas o falar em línguas, as performances no púlpito, as pregações subjetivas que claramente só lançava mais trevas sobre quem as ouvia, as orações com interesses de vaidade pessoal, as manobras sócio-políticas, a gravata, o terno, o carro cheirando a perfume celestial, o dízimo que estufava o envelope, a frequência no culto e a pontualidade eram sinônimos de pontuação e de ganho no currículo espiritual e contribuíam para sofisticar minha performance como membro elevado nessa organização religiosa.


É um ambiente neurotizante, que transfere sua neurose para os desavisados, importa uma teologia americana de riqueza e propriedade como forma de prosperidade, padronizando em termos mercantilistas toda sua liturgia, acentuando que, as melhores virtudes são: compromisso, contribuição, responsabilidade, constância nos programas e eventos de arrecadação, e tudo isso não puramente, mas sempre girando em torno da igreja, do pastor e da placa que fica sobre suas portas, e costas.


Os evangélicos e suas igrejas, são ou se tornaram hoje, a universal ilusão descrita por Nieztsche, o novo testamento é o seu pior pesadelo como disse Kierkegaard, e a pedra de tropeço é o próprio Jesus.


Supersticiosos, anônimos nas causas sociais, avarentos, racistas, autores do desmantelamento familiar, quando mulheres e crianças, adolescentes e jovens sufocam agonizando na doutrina do: mantenham-se longe do mundo, indiscretos, torturadores da vida quando afogam o livre pensar e o bom senso nas águas mórbidas da clausura existêncial, alegram-se com todos os bancos e cadeiras, com a extenção do templo, com o som amplificado, com o microfone shure sem fio, com a soma mensal que sumarizam suas reais intenções, expulsam o pecador hediondo, criam metas numéricas nos atos de evangelização, suprimem a fraqueza daqueles que se confessam inadequados para esses mecanismos, arquitetam o testemunho mais convincente e comovente, é um auto nível de um auto-engano, e quando pessoas se sentem incomodadas com esse sistema, os rótulos são: doentes, traumáticos que não sabem viver, insubmissos e possessos que não entendem nada.


Não defendo os sem igreja, mas vejo que eles não estão errados, pois pertencer a uma igreja desconfiando que a relação com o novo testamento é só teórico, e mais, teorias totalmente incompatíveis com a realidade, não é de admirar sua insatisfação. Não são doentes, não na concepção que pastores os vêem, mas sua doença é a angústia em ver destorcida a verdade do evangelho, por isso andam só, não sozinhos, mas só nos ideais.


Ao pensarem que estão sozinhos, enganam-se, ao pensarem que estão buscando o próprio interesse também enganam-se, pois o futuro da igreja institucional é esse mesmo, sua irrelevância.

Não estão só os desiludidos com a igreja institucional, e não buscam seu próprio interesse afastando-se dela.

João Neto.