terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Meus amigos



Eles se foram. Nem um tchau ou adeus.
Eu os magoei, eles me magoaram. Foi uma dupla via sem esforço em desfazer todo um edifício construído por anos.
Também a imperfeição era latente pra não dizer egoísmo solvente.
Pois é, dissolveu tudo o mais, nossas confissões, idéias de comunhão, tudo que foi comungado virou cacos nas lembranças, se foram em bando, sinto saudade não vou negar, sinto remorso, não nego e não sossego.
Meu desejo é viver tudo de novo, só que de uma maneira diferente se fosse possível, menos ausente e mais disponível, porquê só aprendemos depois? Porquê não aprender antes do erro? Porque só valorizamos algo quando o perdemos?
Se não houver o erro há a perfeição? E sendo perfeito talvez os teria de volta?
Sinto saudades. O aprendizado é um canal doloroso onde perdemos grande parte do nosso todo, é isso mesmo, não sou só eu, sou eu e mais alguém, a ilusão da solidão é um estigma de permanente depressão, chega-se até criar um mundo subalterno de anseios indesejados, de sentimentos antes nunca sentidos, de loucuras nunca antes provadas, de degraus inferiores nunca antes pisados. Isso é uma ruptura, isso é uma ferida aberta, e é nessa calçada suja da culpa no gueto sombrio do egoísmo, que meus pecados me torturam.
Eles se foram. Nem um tchau ou adeus.
Naquela esquina da vida onde os vejo, um outro ambiente, uma outra rota é traçada bem longe daqui, e a minha é traçada na direção contraria, talvez num cruzamento desses, nossos caminhos se encontrem novamente.

João Neto.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ao início pelo fim


De resto, o que importa todas as misérias do passado? Naquela primeira alegria do regresso à vida, tudo, até seu crime, até a sua condenação e a sua deportação para Sibéria, tudo lha parecia como um fato exterior, estranho; parecia atém duvidar que isso tivesse realmente acontecido. Aliá, naquela noite ele não conseguia refletir por muito tempo, fixar o pensamento em um objeto qualquer, nem conseguiria resolver conscientemente qualquer questão que fosse; só conseguia sentir. No lugar da dialética surgira a vida, e na consciência devia elaborar-se algo inteiramente diferente.

Debaixo do travesseiro ele tinha o evangelho. Pegou-o maquinalmente.Aquele livro pertencia a ela, fora naquele mesmo volume que lhe havia lido outrora a passagem da ressurreição de Lázaro. No principio da sua vida de prisioneiro, ele esperava que ela haveria de importuná-lo com religião, que vira constantemente se pôr a falar sobre o Evangelho. Mas, para seu espanto, nem uma única vez ela fez derivar a conversa para esse assunto, nem ma única vez lhe sugeriu o Evangelho. Fora ele próprio que lho pedir pouco tempo antes de sua doença, e ela levou-lhe sem dizer palavra. Até então ele não o tinha aberto. Tampouco o abriu dessa vez, mas um pensamento atravessou-lhe rapidamente o espírito: “ Poderia agora as suas convicções ser diferentes das minhas? Poderei eu ter outros sentimentos, outras aspirações que não seja as dela?...” Durante esse dia, Sônia estava também, muito agitada, e à noite chegou até a voltar a ficar doente. Mas estava feliz, que quase sentia medo daquela felicidade. Sete anos, somente sete anos! Nas primeiras horas da sua felicidade, pouco faltou para que ambos considerassem esses sete anos como sete dias. Ele em mesmo sabia que a nova vida não lhe seria de graça, que tinha de adquiri-la a custo de longos e dolorosos esforços, que teria de pagar por ela com uma grande realização no futuro.

Mas aqui começa uma outra história, a da gradual renovação de um homem, da sua regeneração paulatina, da sua passagem progressiva de um mundo para o outro, do seu conhecimento de uma realidade nova, inteiramente ignorada até aquele momento. Poderia ser a miséria de uma nova narrativa-mas esta que vínhamos narrando termina aqui.

Por Fyodor Dostoiévski ( Crime e Castigo )

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quem sou eu


Minha condição humana me fascina. Ignoro por que estou na Terra, mas às vezes pressinto. Sou o concreto e o abstrato.
Reconheço que sou o concreto de minha existência quando observo homens se diferenciarem pelas classes sociais; partidos políticos elaborarem leis unilaterais; governo aumentar impostos para compensar gastos irrisórios; autoridades regatearem verba para educação e a humanidade se apaixonar pela riqueza material como única finalidade de vida.
Em contrapartida, sou o abstrato da sabedoria para garantir o uso do conhecimento acumulado no passado aplicado no descobrimento da minha presença aqui; para perceber novos caminhos e alternativas não traçadas na viagem; para interagir com discentes, proporcionando situações que envolvam observação, comparação, valoração, decisão, autonomia e transformação da realidade uma vez que os indivíduos não são presenças neutras na história.
Logo, sou o concreto no social e histórico e o abstrato quando valorizo a importância da luta esperançosa de transformação do mundo a partir de uma intervenção que não adere nem se adapta, mas analisa e modifica.

Sandra Valéria Walchhutter ( Professora de Português da Etec Jorge Street )

Somos todos seres desejantes


Somos todos seres desejantes, Talvez o desejo seja a nossa experiência mais imediata e, ao mesmo tempo, mais profunda. Coisa que já Aristóteles vira e que Freud colocou como eixo fundamental para entender o motor humano.

A nossa estrutura de base é o desejo. E faz parte da dinâmica do desejo não ter limites. Não desejamos só isso e aquilo. Desejamos tudo. Não queremos só viver muito, queremos viver sempre. Desejamos a imortalidade. E nos frustramos, porque o princípio da realidade nos mostra que somos mortais. Vamos morrendo devagarzinho , em prestação, cada dia, até acabarmos de morrer. Mas o nosso desejo é sempre virgem, sempre quer viver mais, quer prolongar o tempo, quer transcender a morte. A grande chave da pseudo-transcendência é manipular nossa estrutura de desejo, é canalizar toda nossa potencialidade de desejo para uma coisa limitada e identificar essa coisa com o totalidade da realidade. É então que nos frustramos, porque o desejo quer o todo e só alcançamos a parte.

A propaganda do cigarro Marlboro é como um sacramento da igreja Católica que age ex opere operato – age por si mesmo, automaticamente. Quem fuma Marlboro, nos prega o marketing, tem as mulheres mais esplêndidas, dirige uma Ferrari luzidia, desfila por paisagens soberbas. Basta fumar Marlboro para ter essas experiências, assim como as paisagens belíssimas, existem só no imaginário. Não produzem nada, fornecem apenas uma ilusão e manipulam nossos sentimentos. Mas o grave é isso, que permitem a ilusão da realização do desejo infinito identificado com um objeto finito. Devemos passar por todos esses objetos, dizendo fundamentalmente: “ O obscuro objeto do desejo humano não é este ou aquele ser, esta ou aquela realidade. Não é um automóvel, não é uma mulher esplêndida, não é escrever um livro, não é fazer teatro, não é ser isso ou aquilo. É mergulhar no ser, captar a nossa sintonia com a totalidade, é sentir que somos chamados ao ser pleno, e não ao pedaço do ser.”

Vivemos no finito. Tudo o que tocamos é limitado. Mas o desejo é infinito, é ilimitado. Então, para sermos fiéis aos apelos de nossa interioridade, é preciso manter essa abertura infinita. Quando confundimos essa realidade parcial com a totalidade da realidade, vem a ilusão do fetiche, a ilusão do endeusamento, da idolatria, dos falsos deuses.

Leonardo Boff ( Tempo de transcendência )

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Auto-engano


Minha mãe sempre repetia, antes só do que mau acompanhado, a bíblia ensina-me''aquele que se isola busca seu próprio interesse”, no decorrer da vida percebi que minha mãe não estava errada, nem a bíblia.


Algumas companhias não eram boas, mesmo sendo uma pessoa livre de opinião, sempre existia aquela pressão, o comportamento adequado para pertencer ao grupo. Me afastei conscientemente das influências que derrapavam em si mesmas, sem o prévio conhecimento bíblico certifiquei-me posteriormente que estava impregnado do meu próprio interesse, até ai normal pois buscava melhoria de vida, e essa melhoria estava muito além daquele grupo que tinha interesses antagônicos aos meus, passei a andar só, não sozinho, mas só nos ideais.


Passado alguns anos tive alguns contatos esporádicos com aqueles antigos amigos, alguns vivos outros mortos, alguns iguais outros diferentes, mas ainda tínhamos laços de amizade, algumas idéias, ou resto de semelhanças. Convertido ao cristianismo e servindo ignorantemente a um pastor e a uma igreja medíocre de sensibilidades, tornei- me mais um anjo da insensibilidade, como uma lixa áspera lixava e nem me lixava para ninguém, meu umbigo era a região mais longe em que realmente depositava preocupação, alcancei níveis de espiritualidade que exploravam mais a imaginação do que a realidade, obtive reconhecimento dentre os irmãos por falar constantemente em línguas estranhas, pois sutilmente fui ensinado que quem assim procedesse teria destaque na igreja como pessoa abençoada, iluminada, inspirada e espiritualizada.


Era uma ilusão enraizada e permanente nas tradições evangélicas o falar em línguas, as performances no púlpito, as pregações subjetivas que claramente só lançava mais trevas sobre quem as ouvia, as orações com interesses de vaidade pessoal, as manobras sócio-políticas, a gravata, o terno, o carro cheirando a perfume celestial, o dízimo que estufava o envelope, a frequência no culto e a pontualidade eram sinônimos de pontuação e de ganho no currículo espiritual e contribuíam para sofisticar minha performance como membro elevado nessa organização religiosa.


É um ambiente neurotizante, que transfere sua neurose para os desavisados, importa uma teologia americana de riqueza e propriedade como forma de prosperidade, padronizando em termos mercantilistas toda sua liturgia, acentuando que, as melhores virtudes são: compromisso, contribuição, responsabilidade, constância nos programas e eventos de arrecadação, e tudo isso não puramente, mas sempre girando em torno da igreja, do pastor e da placa que fica sobre suas portas, e costas.


Os evangélicos e suas igrejas, são ou se tornaram hoje, a universal ilusão descrita por Nieztsche, o novo testamento é o seu pior pesadelo como disse Kierkegaard, e a pedra de tropeço é o próprio Jesus.


Supersticiosos, anônimos nas causas sociais, avarentos, racistas, autores do desmantelamento familiar, quando mulheres e crianças, adolescentes e jovens sufocam agonizando na doutrina do: mantenham-se longe do mundo, indiscretos, torturadores da vida quando afogam o livre pensar e o bom senso nas águas mórbidas da clausura existêncial, alegram-se com todos os bancos e cadeiras, com a extenção do templo, com o som amplificado, com o microfone shure sem fio, com a soma mensal que sumarizam suas reais intenções, expulsam o pecador hediondo, criam metas numéricas nos atos de evangelização, suprimem a fraqueza daqueles que se confessam inadequados para esses mecanismos, arquitetam o testemunho mais convincente e comovente, é um auto nível de um auto-engano, e quando pessoas se sentem incomodadas com esse sistema, os rótulos são: doentes, traumáticos que não sabem viver, insubmissos e possessos que não entendem nada.


Não defendo os sem igreja, mas vejo que eles não estão errados, pois pertencer a uma igreja desconfiando que a relação com o novo testamento é só teórico, e mais, teorias totalmente incompatíveis com a realidade, não é de admirar sua insatisfação. Não são doentes, não na concepção que pastores os vêem, mas sua doença é a angústia em ver destorcida a verdade do evangelho, por isso andam só, não sozinhos, mas só nos ideais.


Ao pensarem que estão sozinhos, enganam-se, ao pensarem que estão buscando o próprio interesse também enganam-se, pois o futuro da igreja institucional é esse mesmo, sua irrelevância.

Não estão só os desiludidos com a igreja institucional, e não buscam seu próprio interesse afastando-se dela.

João Neto.

Uma nova natureza


Ora essa! Todos desfrutamos um lugar comum, pouco mais e um pouco menos que o estado natural congênito. Poucos fogem de Alcatrás, pau que nasce torto morre torto, ou torturado a pauladas, mas isso agora não convém.


Convenhamos, nossas semelhanças são muitas e evidentes, até aquelas que nunca são expostas revelam o tamanho da igualdade, e eu não pensava assim, outrora ingênuo cria piamente nas diferenças, nos santos, nos super espirituais, e no inverso também. Ingenuidade.

Observo a mim e os outros, os outros e os outros e percebo que somos todos purê de uma mesma batata.


O profano não é mais profano que o santo, o santo não é mais santo que o profano, aqui está o paradoxo, ou algo assim, não há diferentes mas apenas rótulos, há quem se convença da santidade, e nesse convencimento as máscaras são as mesmas, bom mocismo e orgulho exacerbado, dito isso, conclamo sua atenção para dentro de você mesmo, e lhe faço essa pergunta, você é santo? Ou, você se considera diferente dos outros? Ou, qual o sentido da vida e da morte?

Paro nessas.


Creio estar sendo intruso, mas essa é a intenção, trazer à superfície o que está por baixo, nas águas plácidas do auto- engano, na febre universal que produz delírios e obsessões, uns a chamam de ilusão, outros de ópio do povo, outros de muleta de aleijado.


Já concebi como disse acima, a idéia de um ser especial, sem carne, só espirito, só bons interesses, com extrema vocação angelical, acima dos mortais, cem porcento limpo, casto e íntegro.

Certamente equivocado, entrei em conferência com a malícia, que com uma voz sedutora e firme disse-me: ''abra os olhos, seu tolo!”.

Confesso minha surpresa e teimosia em aceitar a novidade.


Trilhando a jornada da vida com seus sabores e dissabores cheguei até aqui, concluindo o seguinte: ''se correr o bicho pega se ficar o bicho come” , os homens correm, os homens ficam, mas o bicho permanece como neurose, preferindo suas carnes.

Que a esperança seja fazer parte de uma outra natureza.

João Neto

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Evangelho maltrapilho


O Evangelho maltrapilho.

O amor de Deus é simplesmente inimaginável:''e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda plenitude de Deus” ( Ef 3:17-19 ).

Será que estamos ouvindo de fato o que Paulo está dizendo? É mais, meu chapa, mais. Dê as costas as percepções empobrecidas, restritas e finitas de Deus. O amor de Cristo está além de toda a compreensão, além de qualquer coisa que possamos intelectualizar ou imaginar. Não se trata de uma branda benevolência, mas de um fogo consumidor. Jesus é tão insuportavelmente perdoador, tão infinitamente paciente e tão infindavelmente amoroso que nos provê com os recursos que carecemos para vivermos vida de graciosa retribuição.''Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória” (Ef 3:20, 21a ).

Isso soa para você como um religião fácil?
O amor tem suas próprias exigências. Ele não pesa e não poupa nada, mas espera tudo. Talvez isso explique nossa relutância em arriscar. Sabemos muito bem que o evangelho da graça é um irresistível chamado a amarmos da mesma forma. Não é de admirar que muitos de nós escolham entregar a alma a regulamentos em vez de vivermos em união com amor.
Não há maiores pecadores do que os supostos cristãos que desfiguram a face de Deus, mutilam o evangelho da graça e intimidam os outros através do medo. Eles corrompem a natureza essencial do cristianismo. Na frase contundente de Eugene Peterson:'' Eles estão dizendo mentiras sobre Deus, e malditos sejam”.

A igreja está numa encruzilhada crítica. O evangelho da graça está sendo transformado e comprometido através de silêncio, sedução e franca subversão. A vitalidade da fé está ameaçada. Os slogans mentirosos dos pilantras que empunham a religião como uma espada multiplicam-se com impunidade.

Que os maltrapilhos em todo lugar ajuntem-se como igreja professa para clamar em protesto. Revoguem-se as licenças dos líderes religiosos que falsificam a idéia de Deus. Que sua sentença seja passar três anos na solitária tendo a Bíblia como única companhia.
Maria Madalena destaca-se como testemunha por excelência do evangelho maltrapilho. Na sexta-feira Santa ela assistiu o homem que ela amava ser assassinado da forma mais brutal e desumana. O foco da sua atenção não estava no entanto no sofrimento mas no Cristo sofredor,''que me amou e a si mesmo se entregou por mim” ( Gl 2:20 ). Nunca permita que essas palavras sejam interpretadas alegoricamente na vida de Madalena. O amor de Jesus era uma realidade ardente e divina para ela: ela estaria soterrada na história como meretriz anônima não fosse o encontro com Cristo.

Ela não possuía qualquer compreensão de Deus, de igreja, de religião, de oração ou de ministério a não ser nos termos do homem santo que a amara e entregara a si mesmo por ela. O lugar único que Madalena ocupa na história do discipulado não se deve ao seu misterioso amor por Jesus, mas à miraculosa transformação que o amor dele produziu em sua vida. Ela simplesmente permitiu ser amada.'' A verdade central da qual vida de Madalena se tornaria emblema é que pelo o amor é possível ser liberto das mais ínfera profundezas às resplandecentes alturas onde Deus habita”.

Onde abundou o pecado, a graça abundou ainda mais...
...A igreja professa dos maltrapilhos precisa juntar-se a Madalena e a Pedro no testemunho de que o cristianismo não é primariamente um código moral, mas um mistério permeado de garça; não essencialmente uma filosofia do amor, mas um caso de amor; não é agarrar-se com unhas e dentes a regras, mas é receber um presente de mãos abertas.
Há muitos anos, o renomado teólogo evangélico Francis Schaeffer escreveu: A verdadeira espiritualidade consiste em viver cada momento pela graça de Jesus Cristo. Esse livro não reivindica para si qualquer originalidade; ele é apenas um comentário sobre a declaração de Schaeffer. Como C.S.Lewis gostava de dizer: as pessoas precisam ser mais lembradas do que instruídas.

Brennang Manning.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Essa igreja não existe mais.





“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.” At 2:43-47


Na época do surgimento da Igreja do Novo Testamento, a palavra igreja significava, apenas, uma reunião qualquer de um grupo organizado ou não. Assim, o texto nos revela que havia um grupo organizado em torno de sua fé (Todos os que criam estavam unidos) – todos acreditavam em Cristo.


Segundo o texto, os participantes do grupo do Cristo não tinham propriedade pessoal, tudo era de todos (tinham tudo em comum) – os membros desse grupo vendiam suas propriedades e bens e repartiam por todos – e isso era administrado a partir da necessidade de cada um; e se reuniam todos os dias no templo; e pensavam todos do mesmo jeito, primando pelo mesmo padrão de vida (unânimes); e comiam juntos todos os dias, repartidos em casas, que, agora, eram de todos, uma vez que não havia mais propriedade particular; e eram alegres e de coração simples; e viviam a louvar a Deus; e todo o povo gostava deles, e o grupo crescia diariamente.


Diariamente, portanto, havia gente acreditando em Cristo, se unindo ao grupo, abrindo mão de suas propriedades e bens e colocando tudo à disposição de todos.
Essa Igreja era a Comunhão dos santos – chamados e trazidos para fora do império das trevas, para servirem ao Criador, no Reino da Luz.
Essa Igreja não precisava orar por necessidades materiais e sociais, bastava contar para os irmãos, que a comunidade resolvia a necessidade deles.
Deus havia respondido, a priori, todas as orações por necessidades materiais e sociais, fazendo surgir uma comunidade solidária.


O pedido: “O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje." (Mt 6.9) estava respondido, e diariamente.
Então, para haver o “pão nosso” não pode haver o pão, o bem ou a propriedade minha, todos os bens e propriedades têm de ser de todos.
Mais tarde, eles elegeram um grupo de pessoas, chamadas de diáconos – garçons, para cuidar disso (
At 6.3). Então, diante de qualquer necessidade, bastava procurar os garçons, que a comunidade cuidava de tudo. Era o princípio do direito: se alguém tinha uma necessidade, a comunidade tinha um dever.
Essa Igreja não existe mais!
Continua.


Por Ariovaldo Ramos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O pântano de Mila


O pântano de Mila.
A bazófia é um pântano sombrio e gélido onde o ser coquete se acha, se encontra, encontra a si mesmo. Esbanja revolvendo-se nas águas em lodo, verdes e negras, expele do seu corpo uma substância peçonhenta, escura como esse seu ambiente lúgubre, seu ódio bem lacrado.
Dissimula a cada salto que dá, sua aparência é sua própria essência, os gestos combinados com olhares de disfarce e eloqüência parva, ilumina todo o seu perfil afetado de misantropia cultivada.

Seu sentimento mais nobre é puro esforço em esconder o poço de mágoas que insiste em afogá-la, ela mesma deriva de uma fonte amarga, de um aspecto doente, como se tudo que nascesse do seu interior fosse torpe, fosse sujo, fosse morte. Ela demora nos cálculos apenas para tirar proveito dos outros, nunca se nota o contrario, agindo em frieza não percebe o fato de ser totalmente pobre, cega como uma ambulante em estado de embriaguez e nudez, trancafiada em seu mundo de imaginações preconceituosas, isolando-se de cada um que está a sua volta, ou não enxerga ou finge não vê, acho que a segunda hipótese caberia muito bem quando aparelhada às suas convicções frívolas e tolas. Em matéria de matéria sua obsessão é estar sempre por cima e com uma postura esnobe quase louca que a confunde com o próprio gênero da esquizofrenia.


Não se mexa tanto oh criatura, pois a composições dos elementos que te são vitais não passam de subterfúgios da sua melancolia e do seu jogo de aparências que para mim são apenas cartas marcadas, vejo sua solidão, sua afetação, sua doença está no seu rosto, seus projetos intrínsecos de altivez que amparam sua debilidade social, ou melhor o seu ódio enraizado e consciente pelos outros a aprisionam à sete chaves, ora maltratando-se ora maltratando o outro, não finja tanto, não dissimule tanto, veja que há uma enorme festa bem longe da sua hoste de dramatizações pueris, elas gravitam em torno da sua megalomania e de seus vícios egocêntricos. Faça um favor a si mesma, desengane-se, perceba que todos os seus costumes e objetivos conduziram sua vida apenas a um lugar, um lugar onde tudo e todos sejam peças manipuláveis atendendo os seus caprichos, e esse lugar aos poucos se tornará como que uma carne apetitosa para abutres ensandecidos devorarem parte a parte sua já tão desfigurada imagem...
João Neto

sábado, 17 de outubro de 2009

Perigo: Achamos a vida.


Perigo, achamos a vida, e pior, gostamos.

O nosso mundo está ficando menos acolhedor, dor, isso é o que mais intensamente nos é pungente.
É duríssimo ter que peregrinar em meio a uma infinidade de conflitos, somos transeuntes numa multidão de solitários, andamos lado a lado com a dúvida, aparelhados à distúrbios mentais e traumas de um passado sofrido. Continuamos involuntários a uma troca de olhar ou um simples olá, que nada, as relações não são relações, são lá passatempo contra o tédio contra a angustiante frustração que fervilha dentro da cabeça, no pulmão, no coração, nos lugares inacessíveis da alma.


A decepção tem feito suas vítimas, a depressão também é parceira nas composições dessas sombras que toldam os raciocínios sem distinção de intelectualidade.
Competir para ser bem sucedido, bonito, qual o celular mais avançado, o que fez , o que faz, onde foi...e assim vamos nessa busca por se sentir adequado, realizado. Na verdade toda essa busca tem matado, tem divorciado o que somos daquilo que deveríamos ser, e acabando por não ser o que deveríamos ser, somos sugados por essa centrífuga de frivolidades que tritura toda espécie de admiração e construção de afetos que sensibilizam os carentes de consideração que somos. Há solução? Talvez. Assim como não existe vacina contra o câncer, provavelmente esse surto de individualismo no qual estamos saturados inseridos e maculados, continuará sofrendo as reações inevitáveis e convulsionando seus doentes a cada primavera, pois todas as receitas remediam retardam mas não curam a degeneração de cada célula essencial ao organismo.


Se há algo isolado a ser feito,esse algo se concentra no ideal de cada um, precisamente que tipo de princípios regem a busca pela felicidade, se existe essa tal qual é dita, tal qual é vivida hoje, se nota o paradoxo de seus elementos, em si mesma é desconexa, seus momentos de euforia são só instantes de ausência do que é triste, e que sempre acaba numa dose mais intensa dos efêmeros meios de satisfazer a lassidão do espírito enfatuado. Onde está a esperança então? Na lógica, é lógico. Assim como três menos um é dois, a cada subtração de comportamentos que sabemos ser inadequados, infrutíferos, mesquinhos, de pequena monta, que não geram saúde de iguais, está claro, sobra um, e sempre ele, o espírito indesejado do orgulho, da auto preservação, da dissimulação implícita em formas silenciosas que permeiam nosso jeito de ser sociedade. Morremos inevitavelmente para aquela alegria de companheirismo chamado de amizade.


Os laços são verdadeiros laços de ódio, mata-se entre as nações, mata-se nas grandes corporações, nas instituições religiosas, políticas, no lar, no casamento, entra pais e filhos, entre irmãos, e a pilha de cadáveres continua vivendo e disfarçando sua putrefação em sorrisos amarelados, abraços mecânicos, lisonjas encenadas, é o canibal em seu potencial, engordando a vítima para depois devorá-la. Somos vítimas e protagonistas desempenhando um papel bélico dos iguais contra os diferentes, toleráveis mas não aceitos, é o orgulho gay, é o orgulho negro, é o orgulho de ser branco, é o orgulho dos bens, é o orgulho da pobreza, não por ela, mas o de ser pobre, é o orgulho protestante, é o orgulho católico, é o orgulho americano, é o orgulho de não ser baiano, o orgulho, o orgulho.


Uma inquietação insiste nesse paradoxo do Nazareno, que poderia ser também do pernambucano por ser oriundo do Pernambuco, assim como aquele de Nazaré: Quem achar a vida perde-la-á, quem perder a vida acha-la-á. Tentei sintetizar assim: Achar a vida é se encontrar com tudo aquilo, e basear toda a existência nesse encontro, que me leva a uma grande distância do que é eterno. Perder a vida é desencontrar com tudo aquilo, e basear toda a existência nesse desencontro, que me leva ao limiar daquilo que realmente importa.
Jesus foi o espelho da contrariedade e da renuncia, manso como uma ovelha no meio dos lobos, despojado de quase absolutamente tudo, a não ser suas roupas, e nem essas foram poupadas em sua morte. Ele sentiu o odor da miséria. Pergunto porque essa abnegação estando em forma divina?


Será porque a dificuldade de um rico entrar no reino dos céus se notabilizaria um fato em sua própria vida, quando os portões celestiais praticamente carregam os pobres no colo?
Philip Yancey foi feliz em dizer que a graça é como a água que corre para as partes mais baixas.


Somos quase sete bilhões de pessoas no mundo, e sofremos os mesmos pesares, catástrofes externas, temores internos. Um irlandês estremece diante do desconhecido assim como um amazonense, um austríaco sorri com a maternidade assim como um angolês, e aqui está a esperança, ainda nascemos, ainda temos diversos motivos para a ressurreição, para a reavaliação de atitudes, para reorganização de projetos, o inverno passa e uma flor rebenta na ainda gélida e lívida escassez de humanidade, que como essa flor, nasce pela manhã e a tarde começa a murchar, nosso tempo é curto, e é mil vezes melhor ser inimigo de um dia e desfrutar da amizade por mil anos do que secar debaixo de um sol elétrico.
Os séculos vão se consumindo...

Por João Neto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Vontade de viver


Exausto da morte, cansado do medo, tremulo por não correr e gritar e gritando aos berros dizendo, alegria, vida, sede dessa vida, fome dessa, anseio por essa vida, desejo de vive-la, de te-la nos braços, vestir suas roupas, sentir o seus
cheiros, esse perfume de natureza de óleo viscoso, denso, trás poesia à lembrança, música cheia de nostalgia, ou nostalgia cheia de música, é dessa vida que eu falo, veja lá, ela precisa ser vivida, mesmo dolorida, precisa ser vivida, saboreada, degustada, experimentada, suas mil poções , variadas realizações, seus belos espetáculos tiram o fôlego, quero beijá-la, venha pra mim vida, com todas as suas delícias, suas composições, fragrâncias, sonetos, doçuras, estética, estilo, não me deixe sem ti, pois já vivi uma vida morta pensando que estava vivo, meu Deus que morte mais bem vivida, o quanto isso foi dramático, uma doença que afligia a pele, doía minha existência, era uma asfixia perturbante, constante, só escuro, sem aquela luz no fim do túnel, meu Deus como foi possível tamanha angústia, era como que uma enchente, invade, inunda, arrasta, destrói, cobria , roubava tudo de precioso, foi difícil mas no amargor senti sua doçura, a prova empírica, e é como se tudo fosse um pesadelo, coisa da imaginação, dor não doida, sofrer não sofrido, claro toda treva é inexistência de luz, por isso eu te quero, não vá de mim, não me deixe, fica comigo, seja minha parceira, deixe-me descobri-la , sonhar, gritar, pular, sorrir, acreditar que posso, deixe-me brincar, ser consciente de mim mesmo, da minha inadequação, da minha imperfeição, da minha vontade inconstante, deixa eu viver, esteja comigo, na alegria na tristeza na riqueza na pobreza na vida na morte, que eu viva, pois da morte estou exausto.
João Neto

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma Silva susessora de um silva?



Uma Silva sucessora de um Silva? Não estou ligado a nenhum partido, pois para mim partido é parte. Eu como intelectual me interesso pelo todo embora, concretamente, saiba que o todo passa pela parte. Tal posição me confere a iberdade de emitir opiniões pessoais e descompromissadas com os partidos.De forma antecipada se lançou a disputa: Quem será o sucessor do carismático presidente Luiz Inácio Lula da Silva? De antemão afirmo que a eleição de Lula é uma conquista do povo brasileiro, principalmente daqueles que foram sempre colocados à margem do poder. Ele introduziu uma ruptura histórica como novo sujeito político e isso parece ser sem retorno. Não conseguiu escapar da lógica macro-econômica que privilegia o capital e mantém as bases que permitem a acumulação das classes opulentas. Mas introduziu uma transição de um estado privatista e neoliberal para um governo republicano e social que confere centralidade à coisa pública (res publica), o que tem beneficiado vários milhões de pessoas. Tarefa primeira de um governante é cuidar da vida de seu povo e isso Lula o fez sem nunca trair suas origens de sobrevivente da grande tribulação brasileira.Depois de oito anos de governo se lança a questão que seguramente interessa à cidadania e não só ao PT: quem será seu sucessor? Para responder a esta questão precisamos ganhar altura e dar-nos conta das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Em oito anos muta coisa mudou. O PT foi submetido a duras provas e importa reconhecer que nem sempre esteve à altura do momento e às bases que o sustentam. Estamos ainda esperando uma vigorosa autocrítica interna a propósito de presumido “mensalação”. Nós cidadãos não perdoamos esta falta de transparência e de coragem cívica e ética.Em grande parte, o PT viou um partido eleitoreiro, interessado em ganhar eleições em todos os níveis. Para isso se obrigou a fazer coligações muito questionáveis, em alguns casos, com a parte mais podre dos partidos, em nome da governabilidade que, não raro, se colocou acima da ética e dos propósitos fundadores do PT.Há uma ilusão que o PT deve romper: imaginar-se a realização do sonho e da utopia do povo brasileiro. Seria rebaixar o povo, pois este não se contenta com pequenos sonhos e utopias de horizonte tacanho. Eu que circulo, em função de meu trabalho, pelas bases da sociedade vejo que se esvaziou a discussão sobre “que Brasil queremos”, discussão que animou por decênios o imaginário popular. Houve uma inegável despolitização em razão de o PT ter ocupado o poder. Fez o que pôde quando podia ter feito mais, especialmente com referência à reforma agrária e a inclusão estratégica (e não meramente pontual) da ecologia.Quer dizer, o sucessor não pode se contentar de fazer mais do mesmo. Importa introduzir mudanças. E a grande mudança na realidade e na consciência da humanidade é o fato de que a Terra já mudou. A roda do aquecimento global não pode mais ser parada, apenas retardada em sua velocidade. A partir de 23 de setembro de 2008 sabemos que a Terra como conjunto de ecosissitemas com seus recursos e serviços já se tornou insustentável porque o consumo humano, especialmente dos ricos que esbanjam, já psssou em 40% de sua capacidade de reposição. Esta conjuntura que, se não for tomada a sério, pode levar nos próximos decênios a uma tragédia ecológicohumanitária de proporções inimagináveis e, até pelo final do século, ao desaparecimento da espécie humana. Cabe reconhecer que o PT não incorporou a dimensão ecológica no cerne de seu projeto político. E o Brasil será decisivo para o equilíbrio do planeta e para o futuro da vida. Qual é a pessoa com carisma, com base popular, ligada aos fundamentos do PT e que se fez ícone da causa ecológica? É uma mulher, seringueira, da Igreja da libertação, amazônica. Ela também é uma Silva como Lula. Seu nome é Marina Osmarina Silva. Leonardo Boff é autor do livro Que Brasil queremos? Vozes 2000.

Por Leonardo Boff.

Confissões de um ex dependente de igreja


Por Paulo Brabo

Estocado em Fé e Crença
Outro dia um pastor observou que eu deveria confessar ao leitor impenitente da Bacia, que não tem como concluir isso lendo apenas o que escrevo, que não vou à igreja faz mais de dez anos. Ele dava a entender que essa confissão provocaria uma queda sensível na minha popularidade; percebi imediatamente que ele estava certo, e que mais cedo ou mais tarde teria, para podar os galhos da celebridade (porque a fama é uma espécie de compreensão), deixar de contornar indefinidamente o assunto.
Quanto mais penso na questão, no entanto, mais chego à conclusão que o que tenho de confessar é o contrário, e ao resto do mundo, não aos amigos que convivem com desenvoltura entre termos como gazofilácio, genuflexão, glossolalia e graça irresistível. Devo explicações à gente comum que vê o domingo, incrivelmente, como dia de descanso – dia de ir à praia, de andar de bicicleta no parque, de abraçar os amigos ao redor de um churrasco, de correr atrás de uma bola ou de encontrar a paz diante de uma lata de cerveja e uma tela radiante.
Preciso confessar que durante trinta anos fui consumidor de igreja. Durante trinta anos fui dependente de igreja e trafiquei na sua produção.
Devo confessar o mais grave, que durante esses anos abracei a crença (em nenhum momento abalizada pela Escritura ou pelo bom senso) que identificava a qualidade da minha fé com minha participação nas atividades – ao mesmo tempo inofensivas, bem-intencionadas e auto-centradas – de determinada agremiação. Em retrospecto continuo crendo em mais ou menos tudo que cria naquela época, porém essa crença confortante e peculiar (espiritualidade = participação na igreja institucional) fui obrigado contra a vontade, contra minha inclinação e contra a força do hábito, a abandonar.
Preciso deixar claro que não guardo daqueles anos qualquer rancor; de fato não trago deles nenhuma recordação que não esteja envolta em mantos de nostalgia e carinho. Ao contrário de alguns, não sinto de forma alguma ter sido abusado pela igreja institucional; sinto, ao invés disso, como se tivesse sido eu a abusar dela. Minha impressão clara não é ter sido prejudicado pela igreja, mas de tê-la usado de forma contínua e consistente para satisfazer meus próprios apetites – apetites por segurança, atenção, glória, entretenimento, aceitação.
Se hoje encaro aqueles dias como uma forma de dependência é porque acabei aceitando o fato de que a igreja como é experimentada – o conjunto de coisas, lugares, atividades e expectativas para as quais reservamos o nome genérico de igreja – representam um sistema de consumo como qualquer outro. As pessoas consomem igreja não apenas da forma que um dependente consome cocaína, mas da forma que adolescentes consomem telefones celulares e celebridades consomem atenção – isto é, com candura, com avidez, mas muitas vezes para o seu próprio prejuízo.
Todo sistema de consumo confere alguma legitimação, isto é fornece ao consumidor pequenas seguranças e pequenas premiações que fazem com que ele se sinta bem, sinta-se uma pessoa melhor (ou em condições privilegiadas) por estar desfrutando de um produto ou serviço de que – e isto é importante na lógica interna da coisa – não são todos que desfrutam.
As igrejas institucionais, por mais bem-intencionadas que sejam (e, creia-me, há muito mais gente bem-intencionada envolvida na criação e na sustentação delas do que seria de se supor) funcionam precisamente dessa maneira. Não é a toa que tanto a palavra quanto o conceito propaganda nasceram, historicamente falando, nos salões eclesiásticos. Se hoje há shopping centers e roupas de marca é porque a igreja inventou o conceito de propaganda e de consumo de massa. Foi a igreja a primeira a vender a idéia de que vestir determinada camisa e ser visto em determinada companhia demonstram eficazmente o seu valor como pessoa; foi a primeira a promover a noção simples (mas cujo tremendo poder as corporações acabaram descobrindo) de que o que você consome mostra que tipo de pessoa você é.
As pessoas que consomem igreja não têm em geral qualquer consciência de que estão se dobrando a um sistema de consumo, mas as evidências estão ali para quem quiser ver. A igreja não é um lugar a que se vai ou um grupo de pessoas que se abraça, mas uma marca que se veste, um produto que se consome continuamente. Tudo de bom que costumamos dizer sobre a igreja reflete, secretamente, essa nossa obsessão com o consumo – “o louvor foi uma benção”, “o sermão foi profundo”, “o coro cantou com perfeição”, “a palavra atingiu os corações”, “Deus falou comigo”. Em outra palavras, tudo que temos a dizer sobre a experiência da igreja são slogans. Na qualidade de consumidores, o que fazemos é retroalimentar nossa dependência, promovendo continuamente nosso produto na esperança de angariar mais consumidores e portanto mais legitimação.
O curioso, o verdadeiramente paradoxal, é que nada nesse sistema circular de consumo (ou em qualquer outro) tem qualquer relação com espiritualidade, com fé ou com a herança de Jesus. Ao contrário, sabemos ao certo que Jesus e os apóstolos bateram-se até a morte no esforço de demolir a tendência muito humana de encarcerar (isto é, satisfazer) os anseios emocionais e espirituais das pessoas em sistemas de consumo e legitimação (isto é, sistemas de controle).
O russo Leo Tolstoi acreditava que, diante da suprema singeleza do ensino de Jesus, levantar (e em seu nome!) uma máquina implacável e arbitrária como a igreja equivalia a restaurar o inferno depois que Jesus tornou o inferno obsoleto. De minha parte, vejo a igreja institucional como um refúgio construído por mãos humanas para nos proteger das terríveis liberdades e responsalidades dadas por Deus a cada mortal e que Jesus desempenhou de modo tão espetacular. Por outro lado, talvez esse refúgio seja ele mesmo o inferno.
No fim das contas você não encontrará na igreja nada que não seja inteiramente atraente e desejável, e aqui está grande parte do problema. Vá a um templo evangélico no domingo de manhã e o que vai encontrar é gente amável, respeitável, ordeira, de banho tomado, sorridente, perfumada e usando suas melhores roupas – e é preciso reconhecer que há um público para esse tipo irresistível de companhia. O bom-mocismo reinante é tamanho, na verdade, que não resta praticamente coisa alguma do escândalo inicial do evangelho. Enquanto descansamos nesse abraço comum a verdadeira igreja, onde estiver (e talvez exista apenas no futuro), estará por certo mais próxima do dono do bar, da vendedora de jogo do bicho, do travesti exausto da esquina, do divorciado com seu laptop, dos velhinhos que babam em desamparo e das crianças que alguém deixou para trás. Certamente não usará gravata e não terá orçamento anual nem endereço fixo.
Portanto nada tenho contra aquilo que a igreja diz, que é em muitos sentidos bom e justo, mas não tenho como continuar endossando aquilo que a igreja dá a entender – sua mensagem subliminar, por assim dizer, mas que fala muitas vezes mais alto do que qualquer outra voz. Com o discurso eclesiástico oficial eu poderia conviver indefinidamente (como de fato já fiz), mas seu meio é na verdade sua mensagem, e frequentar uma igreja é dar a entender:
1. Que aquela facção da igreja é de algum modo mais notável, e portanto mais legítima, do que todas as outras;2. Que o modo genuíno de se exercer o cristianismo é estar presente nas reuniões regulares e demais atividades de determinada agremiação, ou seja, que a devoção é uma espécie de prêmio de assiduidade;3. Que o conteúdo da crença é mais importante do que o desafio da fé;4. Que o caminho do afastamento do mundo, segundo o exemplo de João Batista, é mais digno de imitação do que o caminho do envolvimento com o mundo, segundo a vida de Jesus;5. Que o modo de vida baseado na busca circular pela legitimação é mais respeitável do que o das pessoas que conseguem viver sem recorrer a esses refrigérios;6. Que o modo adequado de honrar a herança de Jesus é dançar em celebração ao redor do seu nome, ignorando em grande parte o que ele fez e diz.
Está confirmada, portanto, a ambivalência da minha posição em relação à igreja institucional. Por um lado, sinto falta dos seus confortos; por esse mesmo lado, respeito a inegável riqueza de sua herança cultural, que não gostaria de ver de modo algum apagada. Por outro lado, ressinto-me de que o nome singular de Jesus permaneça associado a um monstro burocrático no que tem de mais inofensivo e opressor no que tem de mais perverso, quando sua vida foi a de um matador de dragões dessa precisa natureza. Dito de outra forma, não tenho como condenar a permanência de alguma manifestação da igreja, mas não tenho como justificá-lo se você faz parte de uma.
Em janeiro de 1996 Walter Isaacson perguntou a Bill Gates a sua posição sobre espiritualidade e religião. Sua resposta entrará para os anais da infâmia – e não a dele. “Só em termos de alocação de recursos, a religião já não é coisa muito eficiente. Há muita coisa que eu poderia estar fazendo domingo de manhã”. Em resumo, o que dois mil anos de cristianismo institucional ensinaram ao homem mais antenado da terra é que religião é o que os cristãos fazem no domingo de manhã.
Só não ouse criticar o cara por sua visão rasa de espiritualidade. Fomos nós que demos essa impressão a ele, e só a nós cabe encontrar maneiras de provar que ele está errado.
Invente uma.